Color Esperanza
FASE INTERMÉDIA · Dia 16 · de Frómista a Carrión de los Condes
por Paula · 18 de junho
(Esperança é um estado emocional e uma expectativa confiante de que algo desejado irá acontecer. Vai além do desejo passivo. É uma força motriz que combina o anseio por um resultado positivo com a crença de ser possível, impulsionando a ação)
O destino de hoje é o Albergue Paroquial de Santa Maria, muito conhecido pelas suas Freiras Cantoras. Vou na esperança de conseguir dormida, já que os lugares são limitados e não é possível reservar.
Hoje é dia de sessão de tratamento em Lisboa. Sei que é um dia difícil e custa-me não estar presente. Ligo para casa. Vivo na esperança de que tudo corra bem e que termine depressa.
O caminho de hoje é feito maioritariamente por estrada, junto aos campos dourados. Escolho uma rota diferente (com um desvio de 600 metros), na esperança de que seja mais inspiradora. E confirma-se. Atrás de mim vem, enganada, uma francesa roncadora de 70 anos (já me rendi aos tampões!) que fica muito agradecida por lhe mostrar este plano B.
Quase a chegar a Carrión de los Condes cruzo-me com um sul africano que me oferece uma cruz com a inscrição “Just God”. “I was hoping to find you. I found it yesterday after you left San Anton Convent and thought it was yours.” Não era minha, mas fiquei com ela.
Sou das primeiras a chegar e garanto a minha cama com um donativo de 10 euros. Estou com sorte: fiquei com a cama de baixo. Mas hoje não há lençóis (!) e por isso durmo com o meu lençol-saco-cama e a toalha de banho a fazer de fronha.
A receção pelas freiras é ternurenta: prepararam uma limonada e oferecem bolachas. Ao fim da tarde rezam as Vésperas, um momento acompanhado à guitarra pela freira peruana, que canta e encanta.
(Para quem não sabe, as Vésperas são uma oração oficial da Igreja, parte da Liturgia das Horas. Realizada ao entardecer, serve para agradecer pelo dia que passou e consagrar a noite a Deus)
Depois das Vésperas passamos ao albergue, onde as freiras animam o fim da tarde com música. É uma pena não ter fotos, nem vídeos deste momento, mas as freiras pediram para não usar telemóvel e viver o momento.
Cantamos juntos “When the Saints Go Marching In”, “Take Me Home, Country Roads”, “Guantanamera”. Mas a mais emocionante, e de acordo com o espírito de hoje é “Color Esperanza”:
“Saber que se puede, querer que se pueda
Quitarse los miedos, sacarlos afuera
Pintarse la cara color esperanza
Tentar al futuro con el corazón”
Seguiu-se um jantar comunitário partilhado. Mas hoje às sete da tarde há valores mais altos que se levantam: Portugal estreia-se no Mundial, contra o Congo.
De cachecol ao peito, saio na esperança de encontrar um bar com televisão. Só à terceira tentativa encontro um senhor que, sensibilizado pela minha busca incessante, procura um comando especial, liga a televisão pirata e… pimbas!
Gooooooooooloooooo! João Nevessssss!
No regresso ao Albergue começa chuva forte e trovoada. Vim sem casaco (pudera, estão mais de 30 graus!). Na esperança de não me molhar, vou avançando encostada aos beirais dos telhados.
A cor esperança é a mais bonita que conheço. Caminho vestida nela todos os dias, porque a vida é bela demais para viver à espera do pior.
Para ouvir a Color Esperanza, clicar aqui:














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Comentários (3)
Saíste à chuva e de certeza com um grande melão depois do jogo medíocre do nosso Portugal :-(
— Madrinha Alegria, 18/06/2026 ·
Tiveste graça Madrinha Alegria! Um beijinho
— Carla, 19/06/2026 ·
Mais um dia cheio de histórias! É mesmo bom seguir te! By the way, houve outro golo… a esperança mantém se para o próximo jogo 😉 💚💚💚💚💚 Vou guardar a tua frase da cor da esperança que vestes todos os dias! E partilhar com a minha mãe! Pude ser que te ouça a ti 😘
— Olho de Passaro, 21/06/2026 ·